20.5.13

18.5.13

Jacinta Passos, jornalista




A Resposta

     Jacinta Passos

 
 
            Há nove meses já que se encontra presa, em São Paulo, Elisa Branco, condenada a quatro anos e três meses de prisão. Por que foi condenada?
            No entender do juiz que condenou Elisa Branco, o fato de abrir uma faixa com os dizeres “Os soldados nossos filhos não irão para a Coreia”, e a distribuição de um boletim da Federação de Mulheres Paulistas sob o título “Ao coração das mães brasileiras“ significam: “a) fazer propaganda com boletins contra a estrutura e a segurança do Estado e a ordem social, ao regime jurídico da propriedade, da família e do trabalho, à organização e ao funcionamento dos serviços públicos, aos direitos e deveres das pessoas de direito público para com os indivíduos e reciprocamente; b) incitar diretamente o ódio entre as classes sociais ou instigá-las à luta pela violência.”
            O juiz que condenou Elisa Branco não pôde encontrar uma justificação para o seu crime nem mesmo nas leis de sua classe. Deve então ter pensado assim: _ A ordem é condenar. Mas se não houve crime, dentro da lei? Isto é o diabo. Ora, a lei. A lei é de matéria plástica, como os brinquedos e caixinhas que os americanos exportam para o Brasil, a lei é dócil em nossas mãos, pois pode ser amassada, distorcida, interpretada segundo nossos planos. E assim foi feito. E veio a condenação. Condenação baseada numa mentira e atirada à face do povo como um insulto.

            Este feito revolta qualquer pessoa honesta, mas não revolta somente. Faz pensar também: por que havia ordem de condenar Elisa Branco? É que sua condenação é uma parte apenas de um plano monstruoso de preparação guerreira do nosso povo. Aqueles que preparam a guerra – os imperialistas americanos e seus instrumentos, desde Truman até Getúlio e João Neves – sabem que não basta comprar armas e generais de traição. É preciso mais, é preciso ir amortecendo a resistência do povo: que ele se vá acostumando, aos poucos, com o inevitável da guerra, da morte, aos poucos, hipnotizado, inconsciente, sonâmbulo, até ao suicídio. _ Manifestações de massa contra a guerra? Contra a intervenção americana na Coreia? Nunca. Vamos fechar a boca do povo, dizer que a luta pela paz é manobra comunista,que só interessa aos comunistas, vamos separar os comunistas da massa de explorados, vamos fechar as organizações de massa que impedem nossos planos guerreiros.
            _ Ah, as mulheres, sobretudo. Como elas odeiam a guerra com ódio animal, na defesa dos filhos! É preciso fazer calar esta voz no nascedouro; se as mulheres se levantarem unidas contra a guerra, ai de nós! Serão uma força poderosa. Assim pensam os homens que têm os poderes nas mãos. Assim agem, preparam o terror contra uma manifestação feminina, patriótica e pacífica, prendem e condenam Elisa Branco. Agora ameaçam fechar a Federação de Mulheres do Brasil e a Associação Feminina do Distrito Federal. Ah! Senhores, lembrai-vos de Angelina e Zélia, das mulheres de Cruzeiro, de Aparecida em Tupã, das tecelãs do Pará. São nossas irmãs, sua luta é nossa luta e é a mesma de todas as mulheres simples do Brasil por uma vida melhor, por um mundo de paz, sem miséria e sem fome. Sabeis qual seja nossa resposta às vossas ameaças? Trabalhar mais e melhor. Ampliar o nosso trabalho, falar às mulheres de todos os bairros, na linguagem delas, sem diferença de cor ou crença ou ideias políticas, dizer da nossa luta por um mundo melhor, contra a exploração, por um pacto de paz que afaste o perigo da guerra. Organizar uma massa cada vez mais numerosa de mulheres que participem do Congresso de Julho, em São Paulo, e realizar o Congresso para largar o movimento feminino por todo o Brasil, como uma onda poderosa capaz de exigir as coisas simples e concretas de que precisamos: mais pão, mais saúde, mais escolas e alegria para a infância, garantia de paz e trabalho para toda a família brasileira.
 
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            Artigo publicado no jornal Imprensa Popular (órgão do Partido Comunista Brasileiro), em 9 de Junho de 1951, p. 2. Corrigidos erros ou omissões de pontuação e grafia,  atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado no Brasil em 1995. 

                Este artigo protesta contra a prisão e condenação da costureira Elisa Branco, nascida em 1912, que, a 7 de setembro de 1950, durante comemoração do Dia da Independência, empunhou uma faixa em frente ao palanque das autoridades, protestando contra o apoio do Brasil aos Estados Unidos na Guerra da Coreia, e contra o possível envio de tropas brasileiras para esta guerra. Condenada pelo Tribunal Militar a 4 anos e 3 meses de prisão, Elisa viu formar-se em torno do seu caso um grande movimento popular, do qual os comunistas participaram intensamente. Em novo julgamento, ocorrido durante o ano de 1951, Elisa Branco foi absolvida. Em 1953, recebeu o Prêmio Stalin, em Moscou.
            O texto demonstra a profunda ligação de Jacinta Passos, à época, com o programa e as ideias do Partido Comunista Brasileiro, assim como sua incansável identificação com os movimentos femininos e feministas. Em carta de 20 de setembro de 1951 dirigida à cunhada Zélia Gattai, que se encontrava em Praga, Jacinta escreveu sobre o mesmo assunto: “Hoje à tarde foi absolvida E. Branco, no S. Tribunal, dois votos contra dois, e o juiz desempatou a favor. Vitória do movimento de massas para libertá-la.” (in Jacinta Passos, Coração Militante, p. 388).
 
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Agradeço ao engenheiro João Nascimento a localização e encaminhamento deste artigo de jornal.
Imagem: Elisa Branco quando recebia em Moscou o Premio Stalin, 1953. PROIN, Arquivo Público do Estado de São Paulo e Universidade de São Paulo. 

11.5.13

Jacinta Passos, mãe


 




A menina e a mãe
                                                                                             Janaína Amado*


Quando a menina pequena abre os olhos de manhã cedo, pergunta logo Cadê mamãe? Neste dia não tem resposta. Nunca mais terá resposta a essa pergunta. Mazi disfarça, diz que a mãe foi ali e volta já, mas o dia inteiro se passa e a mãe não volta. Irritada, inquieta, a menina não consegue brincar, chora, não tem apetite: Não quero comer esta porcaria!, joga o prato em cima de Mazi.

A menina percebe que alguma coisa está profundamente errada. Não sabe o que é, porém seu

corpo alerta indica o perigo a rondar. Precisa da mãe ali para protegê-la, defendê-la. Chama por ela, chora por ela, mas desta vez a mãe não está ali junto, sumiu. Muito confusamente a menina intui que o problema é a mãe, a mãe é o problema, mas não entende, e chora.

Quando o pai enfim volta para casa, a menina voa em cima dele. Pula em seu pescoço, ansiosa: Cadê mamãe? Ele a põe no chão. A menina percebe que o pai não olha para ela, o olho dele está saindo pela janela, longe. Parece muito cansado, o seu pai. Cadê mamãe, cadê mamãe?, insiste. A resposta chega como surra:

— Mamãe está doente. Vai precisar ficar no hospital.

Doente? Mas mãe não fica doente! Pela primeira vez, o pai sorri. "Fica, sim. Lembra quando ela sentiu aquela dor de garganta e teve de ficar na cama? Estava doente." Mamãe tá com dor de garganta? Não. Tá com dor de dente? Não. Com dor de olho? De nariz? Andando atrás do pai, a menina vai repetindo a mesma pergunta, com a troca da última palavra. Não estava nem na metade da sua lista de partes do corpo, quando o pai dá um berro: "Chega! Me deixa em paz!" tão súbito e alto e aterrador que a menina escorraçada dispara rumo à cozinha, vai chorar no colo de Mazi.

Nesta noite, ela consegue dormir só muito tarde, depois de Mazi cantar o Sapo Cururu várias vezes e seus olhinhos se fecharem de exaustão.

Sonha com a figura forte da mãe ao seu lado, as duas caminhando juntas pela rua clara de sol, uma brisa que vem do mar levantando os cabelos delas, a sua mãozinha protegida dentro da mão firme da mãe. Ela observa admirada aquela mãe tão bonita, alta, elegante, empinada. Ri pra ela, de pura satisfação. Com mamãe, eu não tenho medo de carro. Não tenho medo de cachorro. Nem medo de sumir na multidão. Nem medo de esquecer o caminho de casa. Mamãe sabe. Mamãe conhece todos os caminhos. Mas no sonho então a mãe se vira para ela, rosto sério, e diz:"Estou perdida. Não conheço mais os caminhos."

A partir daí a vida da menina vira confusão barafunda anarquia desarranjo, ela aos trambolhões de uma casa pra outra, o pai o tempo todo no trabalho ou no hospital, Mazi dando adeus e indo embora, um monte de gente estranha em volta, seu mundo de ponta-cabeça, todas as coisas, todas as pessoas fora de lugar, pesadelo.

A menina pergunta a cada hora Por que mamãe tá demorando tanto? Ninguém sabe lhe responder. "Como contar a uma menina pequena que sua mãe ficou doida?", pensam. Quando mamãe vai voltar?, insiste. Ninguém conhece a resposta.

À hora de dormir, no escuro, a menina passa devagar a ponta da fronha no rosto, enquanto pensa perguntas que não tem coragem de dirigir aos outros: Por que mamãe não me disse aonde ia? Por que não me deu adeus, beijo, nada? Por que ela me deixou aqui sozinha?
No dia seguinte, retorna à pergunta habitual: Quando a mamãe vai voltar?

Aquela mãe nunca voltou.

A mãe que sabia todos os caminhos nunca voltou.

A filha não a esquece. Como poderia, se a vida inteira tem caminhado ao seu lado na rua clara de sol, passo a passo com a silhueta sem carnes, com a evocação do vulto esbelto, elegante, altaneiro, a vida inteira assombrada pela convivência íntima com o enigma, com a ausência gigantesca que entretanto misteriosamente ainda é capaz de lhe indicar caminhos?

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* Escrevi este texto há alguns anos. Neste dia das mães de 2013 publico-o aqui, em homengem a Jacinta Passos, minha mãe. A saudade que sinto dela não passa, é saudade do que foi e saudade do que poderia ter sido.

Foto: Jacinta Passos e sua filha Janaína, fevereiro de 1948.

28.4.13

Yvonne Jean sobre Jacinta Passos

 
 
 
Este artigo sobre Poemas Políticos, terceiro livro de Jacinta Passos (Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1951), foi originalmente publicado no jornal carioca Correio da Manhã, na coluna "Presença da Mulher", em 4 de Outubro de 1951.
 
A autora do texto e titular da coluna, Yvonne Jean (1911-1981), era belga, chegada ao Brasil na década de 1940, em consequência da Segunda Guerra Mundial. Poliglota, muito culta, profundamente interessada em arte, Yvonne trabalhou em São Paulo e no Rio de Janeiro como jornalista, escritora e intérprete, até se tornar, a partir de 1962, a convite de Darcy Ribeiro, professora da nascente Universidade de Brasília (UnB). Nesta cidade, Yvonne exerceu papel importante como formadora e incentivadora cultural, e também como defensora dos direitos da mulher. Durante o governo militar, Yvonne Jean, comunista, foi perseguida e punida.

Agradeço a João Nascimento a gentileza de localizar e me encaminhar este texto. Graças ao apoio de determinados leitores, vai-se pouco a pouco complementando, como sempre foi o meu desejo, a Fortuna Crítica reunida no volume Jacinta Passos, Coração Militante.


Poemas
 
Yvonne Jean

Quando um jovem poeta que desconheço me manda um livro, confesso que vou adiando a hora de abri-lo. Escrevem demais poemas entre nós. Isto é, não é bem isso, jamais escreverão demais poemas, e todo jovem digno deste nome sente a necessidade de exprimir seus anseios tumultuosos em versos. O que eu queria dizer é que publicam demais poemas que têm importância para seu autor, tão somente. E, quando se trata de poesia feminina, tenho mais medo ainda, porque não dizê-lo francamente! Tenho medo da pieguice, do amor rimando com dor, das palavras maiores que a gente. Ou então, das poetisas que caem no erro oposto, deixando a melancolia pela participação política que exprimem com palavras que ficariam bem num suelto de jornal mas nada têm que ver com poesia. A participação consciente à vida não deve ser ingenuamente explicada, mas desprender-se naturalmente do poema.

Acabei abrindo "Poemas políticos"... e tive uma alegria tão grande. Que bela poesia! Isto é que é poesia de verdade. Jacinta Passos é um poeta. É poeta quando fala na vida.

"Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte e até discurso,
faça tudo o que quiser
menina!
não esqueça que é mulher.


.....................................................

"– Pelo sinal da pobreza!
Pelo sinal de mulher!
 – Pelo sinal
da nossa cor!

Nós somos gente marcada
– ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?


É poeta quando fala no amor. O "Diálogo na sombra" lembrou-me este colóquio sentimental de Verlaine, o poeta, mas sem a amargura e com a esperança, sem o desespero dos amores findos e com a ternura dos amores que começam.

"– Que dissestes, meu bem?

– Esse gosto.
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas, amor, do mar ou de mim?"

Envoltos na solidariedade com o povo que sofre, exprimidos numa forma que pegou o sabor da terra, os Poemas políticos de Jacinta Passos são autênticos, quer dizer essencialmente poéticos. E só posso concordar com Sérgio Milliet quando escreve que a Canção da Partida se caracteriza por uma sensibilidade que, por ser bem feminina, nada tem de piegas, porque se mulheres tantas vezes escrevem poemas piegas não é por não serem feitas pela poesia. Bem ao contrário. Tudo as leva até ela. É porque, em geral, não se libertaram dos complexos seculares e têm medo de serem elas mesmas. Jacinta Passos é uma mulher consciente. Reino da terra, riso será, diz a sua "Canção do Brinquedo". Araçá-mirimSegura o novelo. Segura o novelo. O novelo da vida que encerra a poesia.

13.4.13

Mais um poema inédito!






A Volta

 Vigia os ventos do mar, marinheiro!

_ Eu nasci naquelas terras
que nunca viram este mar.
Um dia meu pai me disse:
vai menino
rebelde ah! deixa estar
            escola de pobre é marinha,

            aprende o jogo do mar.


Antonio! José! Berilo!

Vigia os ventos do mar!


Tua gente está falando: para onde?
Para onde vão te levar?


            _ Na marinha, dura liça,
             muito bravo conheci.
        
             Meu avô sempre contava

            a história que conto aqui.
 
           Era o tempo do chicote

           surrando marujo até
           deixar caído no chão

           mas um dia um batalhão 
           bradou:
           marujo escravo não é!

          Um negro então comandou.

          
          Mil novecentos e dez.
          
         Oh!  água de Guanabara
     
         quanto mistério guardou,`

         muita cabeça cortada

         por seu crime então pagou.

        O gume das machadinhas,

         oficiais, degolou.

      
         A boca de dez canhões

        a cidade ameaçou,
         
         logo o governo fugiu,
 
        João Cândido ganhou.      


         Tempos depois numa ilha

         o governo se vingou,

        duzentos marujos vivos 

       e bravos, ele queimou.


        Ilha das Cobras!
 
         Este nome nos ficou
       
        desta história de marujo

       valente e bom, como eu sou.


Vigia os ventos do mar, marinheiro!


Antonio! José! Berilo!
Vigia os ventos do mar!


Tua gente está falando: para onde?
Para onde vão te levar?
Segues rumo da Coreia? Marinheiro!
Vigia os ventos do mar!


Aqui te espera a morena
dos olhos cor de avelã.

Vigia: será o porto de Santos

ou dunas de Itapoã?


Tua gente está falando: para onde?

Por trinta milhões de dólares
os gringos vão te levar.


O coreano é trigueiro,

feito eu e tu, marinheiro.

Marinheiro, volta o leme
vigia as ondas do mar.


Aqui te espera teu povo,
a casa é tua. Podes entrar.

Os gringos governam a casa,

tu és um homem, não curvas à frente,
por isto deves voltar.


Antonio! José! Berilo!

Vigia os ventos do mar!

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Este poema foi publicado em “Literatura e Arte”, suplemento literário do jornal comunista Imprensa Popular, do Rio de Janeiro, em 30 de Setembro de 1951 e, até onde sabemos, jamais republicado. Agradeço ao pesquisador João Nascimento a gentileza de fazê-lo chegar a mim.
Quando da publicação de "A volta", Jacinta Passos morava com o marido e a filha no Rio de Janeiro, capital do país, onde desenvolvia intensa atividade política e literária. 
“A volta” tem como tema central a Revolta da Chibata, movimento social ocorrido em 1910 na baía da Guanabara. Chefiados pelo marinheiro negro João Cândido Felisberto, cerca de dois mil e quinhentos marinheiros, rebelados contra a aplicação de castigos físicos (principalmente chibatadas) pela corporação, recusaram-se a deixar os navios, ameaçando bombardear a capital da República. A revolta terminou com a vitória dos marinheiros, que tiveram suas reivindicações atendidas e foram anistiados. Uma semana depois, contudo, uma estranha segunda revolta,  de origem obscura, foi violentamente reprimida pelo governo Hermes da Fonseca, que, já sob estado de sítio,  mandou assassinar muitos marinheiros, vários deles presos na Ilha das Cobras, expulsando também da corporação cerca de dois mil integrantes.  
Além de tratar da Revolta da Chibata, o poema “A volta” estabelece relações entre este movimento social e a situação política no Brasil no início da década de 1950. Seus versos exortam os marinheiros do Brasil a se lembrarem do exemplo de 1910 e a voltarem a se revoltar, desta vez contra a ação do imperialismo americano, no país e no mundo. Há também no poema referências à guerra da Coréia (1950-53), assim como ao porto de Santos (SP), onde era grande, entre os estivadores, a aceitação das idéias comunistas.                 

7.4.13

Os muros das cidades



 
 
Os muros

                      Jacinta Passos

Minha cidade tem muros
de pedra, cimento e cal
tem muros que são tribunas,
painéis, cartilha e coral. 

 
Quem de noite faz as letras

que aparecem de manhã?

Será a mão do poeta

ou a mão da tecelã?

 
Viva Luiz Carlos Prestes!
O petróleo é nosso!

Fora com os americanos!

 
A polícia apaga e as letras

aparecem de manhã.

Será a mão do poeta
ou a mão da tecelã?

 
Minha cidade tem muros
brancos, cinzentos, de cores,

riscos de piche e carvão,

ó, pintores, vinde ver!


Vinde ler a história escrita
nos muros, cada manhã.

Será a mão do poeta
ou a mão da tecelã?

                                            (São Paulo, 1953)
                                       

Este poema, publicado no Suplemento Cultural do jornal comunista “Imprensa Popular“ em  25/07/1954, até agora jamais havia sido republicado. Ele me foi gentilmente enviado pelo pesquisador João Nascimento, a quem muito agradeço.
“Os Muros” foi escrito por Jacinta Passos em 1953, ano em que voltou a ser internada na Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, onde já estivera no ano anterior, as duas vezes com o diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Não se sabe se Jacinta compôs este poema durante sua segunda internação no Charcot (quando comprovadamente redigiu o longo poema "A Coluna", depois publicado em livro), ou durante o período em que morou em casa de sua irmã Dulce Passos, também na capital paulista, entre os dois internamentos. “Os Muros” integra a série de poemas políticos de Jacinta.

25.3.13

Um mistério ainda sem resposta



Do historiador sergipano Valter Abano, morador em Barra dos Coqueiros  (SE), sobre Jacinta Passos:


O segredo de Jacinta: Um mistério sem resposta

*Valter Albano

   Ela nasceu na fazenda Campo Limpo, município de Cruz das Almas no recôncavo baiano, era novembro de 1914 (início da 1º guerra mundial), oriunda de família abastada, tradicional e de grande influência política, seu avô Themistoclis da Rocha Passos foi duas vezes Senador da província e seu pai Manuel Caetano da Rocha Passos foi Deputado Estadual, sua mãe, Berila Eloy, era extremamente católica assim como suas irmãs, das quais Jacinta era considerada a mais carola.
   Devido à atividade política do pai muda com a família para Salvador onde forma-se na Escola Normal, sempre dedicada à poesia, intensifica seus trabalhos literários ao lado do irmão Manoel Caetano Filho, torna-se uma das mais importantes jornalista e ativista social na década de 40 da capital baiana, abandona o catolicismo e se aproxima de intelectuais comunistas como Jorge Amado, casa-se com James Amado (irmão mais novo de Jorge Amado) em 1944. Filiada ao PCB, é candidata em 1945 a Deputada, não se elegendo.    
  Produziu uma pequena, porém rica obra literária, objeto de elogios de renomados intelectuais como Mário de Andrade e Antonio Candido, em 1942 publicou pela Editora Baiana o livro Nossos Poemas, em 1943 em São Paulo publica Canção da Partida, pela Edição Gaveta; no Rio de Janeiro, em 1951, Poemas Políticos, e por fim publica em 1957 seu quarto e último livro, intitulado A Coluna, uma homenagem a Luiz Carlos Prestes.
  Em 1951 encontrava-se no Rio de Janeiro quando sofre sua primeira crise nervosa com delírios, são os sinais da esquizofrenia. Em 1955, separada do marido e da filha, volta a morar com os pais em Salvador. Por volta do início de 60 vai morar na cidade de Petrolina, no estado de Pernambuco, em 1962 transfere-se para Sergipe, onde passa a morar na cidade de Barra dos Coqueiros, num casebre as margens do rio Sergipe, possivelmente financiada pelo PCB para desenvolver uma célula do partido. Possuía uma máquina de datilografar onde, à noite, produzia poemas que eram distribuídos pelas ruas, participava de reuniões com pescadores e atividades políticas com estudantes.
   Presa em 1965 nas dependências 28 BC e diagnosticada como esquizofrênica, é transferida inicialmente para a Clínica Adauto Botelho e em seguida para a Clínica Santa Maria, no Siqueira Campos, onde passa longos 8 anos pobre, doente e esquecida.
  Morre em 28 de fevereiro de 1973. Sua vinda para Sergipe e os reais motivos de sua atividade política ainda são mistérios que merecem um olhar mais atento. Jacinta Passos faleceu aos 57 anos de idade escrevendo poesias até praticamente o último dia de vida, e fiel à suas crenças.

*Historiador

     valteralbano@hotmail.com            

21.1.13

Florisvaldo Mattos sobre Jacinta Passos

Abaixo, trecho do alentado e excelente ensaio do poeta e acadêmico baiano Florisvaldo Mattos sobre a obra de Jacinta Passos. Admirador e conhecedor da poesia de Jacinta, Florisvaldo publicou este ensaio, intitulado Presença do humanismo militante na obra de Jacinta Passos, originalmente no livro Jacinta Passos, coração militante, publicado em Salvador pela Edufba/Corrupio:

            "No processo de libertação da transcendência para a progressiva assunção de uma consciência social, antes mesmo de firmar-se uma opção de cunho ideológico sob os ditames de uma agremiação política (sabe-se que ela em 1945 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro), Jacinta Passos começa a delinear um panorama temático com a sensibilidade voltada para uma gama de preocupações e anseios que futuramente se vão desdobrar e se firmar, a par com as marchas e contramarchas de um processo político, através de movimentos, campanhas, organizações, bandeiras, cuja força de atuação irá se afirmar e crescer, abarcando sucessivos decênios, à medida que o século XX avança, para se transformar em uma quase neurose, ao irromper o XXI.

            Esse amálgama ideológico que busca se definir numa contracorrente das mudanças políticas cristaliza-se em torno de um feixe temático que, agindo como doutrina de múltiplas faces, vai concentrar-se em fenômenos sob a forma de lutas em defesa da cidadania, do meio ambiente e da internacionalização de propostas globais de total afirmação das potencialidades do humanismo.

            Tenho para mim que esse painel temático se escalona, arbitrariamente, na seguinte ordem:

            1 - a mulher, a condição feminina, inserida num processo de afirmação e ascensão;

            2 - a criança, que desperta a confiança no futuro, a merecer atenção, sendo até objeto de projetos e programas, em escala mundial, que impeçam venha ela mergulhar no desamparo;

            3 - a natureza, expressada como um bem a serviço da felicidade geral dos homens, refletindo-se em todos os passos da existência humana, o que pressupõe uma luta permanente pela sua preservação;

            4 – finalmente, a eleição exaltada das manifestações populares como refúgio dos desassistidos e vencidos pelos desajustes da própria ordem opressora, na qual se inserem todas as vítimas das desigualdades sociais."

19.12.12

Monografia de Especialização sobre Jacinta


 
 
Acaba de ser anexado aqui mais um trabalho acadêmico sobre Jacinta Passos, que tem a finalidade de iluminar sua atividade jornalística. Trata-se de  “Passagem de Jacinta Passos pelo jornal O Imparcial (1943)”, de autoria de Danielle Spinola Fuad, trabalho orientado pelo Prof. Dr. Luís Guilherme Pontes Tavares.  
O texto originalmente constituiu uma Monografia de Especialização, apresentada ao Centro Universitário Jorge Amado (em Salvador, Bahia), para obtenção do título de Especialista em Jornalismo Contemporâneo, com foco de interesse na História da imprensa feminina da Bahia.
Graças à gentileza de Danielle, a quem agradecemos, sua monografia faz hoje parte deste site. Confira o texto completo na seção "Trabalhos acadêmicos". 

16.11.12

Mais um poema de Jacinta



 
 
nascimento

 
O ano foi vinte e dois [1].  Criatura de desejo

e sonho.  Carne e luar na boca das profecias.
 

Aqui está recém-nascido úmido de lágrimas

e leite, filho das dores, criança concebida

 
na injustiça.



[1] Vinte e dois. Referência ao ano de 1922, quando foi fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
 
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"Nascimento" foi publicado pela primeira vez em Poemas políticos, terceiro livro de Jacinta Passos (Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1951. 87 p.). Foi republicado em Jacinta Passos, Coração Militante (Salvador: Editoras da UFBA e Corrupio, org. de Janaína Amado, 2010, 579 p.). Integra a série de poemas de cunho explicitamente político da autora.
 
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Foto trazida deste site, mostrando os fundadores do PCB em 1922, ano da criação do partido.


 

16.10.12

Nova seção neste site!




Com alegria inauguramos uma nova sessão neste site, intitulada "Trabalhos acadêmicos" (último subtítulo à esquerda, na página principal deste site). 

Atualmente há vários estudantes de cursos de Graduação e de Pós-Graduação, na Bahia e em outros Estados, de diversas áreas (Letras, Psicologia, História, Antropologia...), pesquisando diferentes aspectos da obra e da vida de Jacinta Passos. Sempre que tomarmos conhecimento desses trabalhos, e sempre que seus autores o permitirem, nós os publicaremos aqui, em versão integral ou parcial, a critério dos autores.

Hoje, anexamos à nova seção seu primeiro texto, a versão integral da monografia "Jacinta Passos: Encruzilhadas da Poética e da Militância Humanista", de autoria de Daise Pereira Machado, com orientação do Prof. Dr. Jorge de Souza Araújo. O trabalho foi apresentado como requisito final para obtenção do grau de de Licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa à Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Agradecemos à autora a permisão para publicar aqui seu trabalho.
 
Se você tiver algum estudo, concluído ou não, sobre Jacinta Passos, entre em contato conosco. Tenho certeza de que os novos trabalhos enriquecerão a compreensão que temos hoje acerca da trajetória literária e humana de Jacinta Passos. E quanto mais seus autores conversarem entre si e conhecerem os trabalhos uns dos outros, mais todos se beneficiarão.  O diálogo ajudará a todos. 

11.7.12

Jacinta Passos normalista


Este é o prédio da Escola Normal da Bahia, onde Jacinta Passos estudou (1927-1932), diplomando-se professora. Formada, Jacinta ensinou Matemática nessa mesma escola. A Escola Normal era uma das poucas opções de estudo oferecidas às mulheres em Salvador, à época de Jacinta.

A Escola Normal da Bahia, fundada em 1836, teve funcionamento intermitente no século XIX, para firmar-se a partir do início do século XX. Situava-se na Av. Joana Angélica, junto ao “Corredor do Caquende”, entre o bairro de Nazaré (onde Jacinta morava) e o centro da cidade.

Fonte da imagem: revista Memórias da Bahia, Salvador, UNCSAL, nº 1, p. 42.

2.7.12

A poeta e as manoqueiras


Quando Jacinta Passos ali viveu, a região de Cruz das Almas, na Bahia, era famosa por suas plantações de fumo de alta qualidade e pela fabricação de muito bons charutos, geralmente preparados por mulheres, cujas mãos mais delicadas separavam as finas folhas do tabaco e as  recheavam, enrolando-as e as colocando em belas caixas de madeira. Algumas fábricas estrangeiras de charutos, como a Suerdieck, operavam em Cruz das Almas à época de Jacinta. A poeta foi sensível a esse mundo do fumo, que aparece inclusive no trabalho das mulheres, as manoqueiras que manocavam o fumo, isto é, que trabalhavam com as folhas. No poema "Canção da Partida", por exemplo, Jacinta inseriu estes versos:   

– Vitalina!

manoca o fumo , menina,

você hoje vadiou.

18.6.12

Opinião de uma leitora, Thereza Araújo






Thereza Araújo conheceu Jacinta Passos, quando ambas moravam no Rio de Janeiro, no início da década de 1950. A poeta e o marido de Thereza, o publicitário Raimundo Araújo, eram comunistas e participavam ativamente da vida política do país, encontrando-se diversas vezes para tratar de assuntos relacionados ao PCB, Partido Comunista do Brasil, ao qual os dois pertenciam. Numa dessas vezes, Jacinta foi à casa de Raimundo, acompanhada da filha, e Thereza então a conheceu.
Esta foi a nota que Thereza Araújo enviou a Janaína Amado, filha de Jacinta, após ler Jacinta Passos, Coração Militante, livro que reúne a obra completa, biografia,  fortuna crítica e iconografia sobre Jacinta, organizado por Janaína:

A visita tão esperada de Jacinta e sua filha aconteceu. Logo as recebi aqui em casa com os meus braços abertos e, parafraseando Manoel Bandeira, "nem precisavam pedir licença""! Revi Jacinta, desta vez sorridente, olhar perscutador e seguro, diferente daquela vez que ainda tenho tão nítida na minha lembrança, segredo passado para Janaina e hoje divulgado com a discreção amorosa de quem sabe de tudo.

Transformada em livro, não mudou, pelo contrário rejuvenesceu. Talvez soubesse desde há tanto que um dia estaria entre nós, destino daqueles que têm a esperança como condão.

Quase que num só olhar, graças à mágica das letras, soube de sua vida e de suas dores, advinhei suas alegrias secretas, vivenciei sua auto-estima mesmo quando foi morar num país sem nome nem endereço. Muitas páginas, muitas horas e muita emoção numa tarde de domingo, junto à janela aberta e muita claridade ao redor de nós.

Sua poesia é para ser lida paulatinamente. Um monte de grãos sobre a mesa a serem não escolhidos mas separados e colocados adiante seguidamente, juntos mas separados como a liberdade que ela tanto amou.

Jana querida, estou escolhendo um bom lugar na minha estante para oferecer à sua mãe. Uma coisa eu lhe garanto, ela vai gostar porque vai ficar muito bem acompanhada, seus amigos já as estão esperando e são muitos. Um beijo, nas entrelinhas aos montes, minhas melhores lembranças e todo o meu carinho.
                                                               Thereza Araújo
 

27.5.12

Poema de amor de Jacinta Passos


Três Canções de Amor

I

Eu fui por um caminho.
Eu também.
Encontrei um passarinho.
Eu também.

Passarinho! queres um ninho?

Eu também.

Passarinho virou um homem.
Ai! meu bem.

Agora és tu,
agora eu sou,
amar é doce,
meu corpo eu dou.

Agora muda o sol.
Eu também.
Agora muda a terra.
Eu também.

Agora mudas tu.
Cadê meu bem?

Tão lúcido e tão puro,
inseguro!

Nosso amor é como tudo,
um vaivém.

Podes virar um passarinho.
Eu também.

Jacinta Passos

[Publicado originalmente em "Canção da Partida", 1944. Republicado em "Jacinta Passos, coração militante", 2010. Junto com esta, as outras duas canções de amor que integram este conjunto de poemas foram dedicadas a James Amado, então marido de Jacinta Passos.]

10.1.12

A coluna de fogo: Ildásio Tavares sobre Jacinta Passos



"Jacinta Passos tinha o dom da poesia. Sabia digerir a realidade e devolvê-la transubstanciada em poesia, lirismo – sempre –, uma dramaticidade pungente e, quando necessário, o sopro do épico. E isso se deve a uma imensa habilidade que ela possuía para versejar; para a metaforização e a alegoria, que são pedras de toque do discurso poético. Outra qualidade básica que Jacinta possui é sua pulsação rítmica. Seus poemas são evidentemente calcados na oralidade, o que é óbvio quando ela recria certas cantigas e folguedos infantis; outras vezes, quando a poeta labora com um verso eminentemente erudito, como o trímetro anapéstico, o eneassílabo acentuado de três em três sílabas, comum no romantismo, como em Gonçalves Dias:

Tu choraste em presença da morte?
Na presença da morte choraste?
Não descende o cobarde do forte,
Pois choraste, meu filho não és.

Ou em Castro Alves:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Em Jacinta:o

Cavaleiro que passa a galope
tão veloz no cavalo alazão
o seu nome é Luiz Carlos Prestes,
Comandante sem par, Capitão.

Ela, com incrível habilidade poética, consegue arrumar nomes e coisas prosaicas num metro ágil, veloz, guerreiro, que serviu ao bardo maranhense para seu clássico poema épico “I-Juca-Pirama”, e a Castro Alves, para definir a saga do negro. Muito mais do que a simples habilidade de versejar, já chamava a atenção Otto Maria Carpeaux, está a capacidade de ajustar o metro ao tema, ou o tema ao metro de forma a produzir poesia. Foi o que o ouvido privilegiado de Jacinta percebeu no nome do Capitão. Colocou um é na frente, e já tinha os dois anapestos finais. Com o seu nome, fazendo a sinérese do e de nome com é, ela já armou o trímetro:

O seu no—meé—Luiz—CarlosPres—(tes) hípercatalético"

O trecho acima faz parte do ensaio "A coluna de fogo", que o crítico literário, escritor, poeta e professor Ildásio Tavares ( 1940 -2011) escreveu sobre a obra de Jacinta Passos, especialmente para o livro  Jacinta Passos, coração militante. No seu texto, Ildásio não apenas comprovou a excelência poética de Jacinta, como declarou que a alta qualidade de sua poesia se mantém inalterada nos poemas políticos, ao contrário do que pensava o crítico e poeta José Paulo Paes, no artigo "Entre lirismno e ideologia", reproduzido na íntegra no site de Jacinta Passos (no tag "críticas"). A polêmica entre os dois grandes críticos literários ilumina aspectos essenciais da poética de Jacinta, e obriga seus leitores a refletir e a tomar posição.

5.12.11

Chamado de amor


Chamado de amor

Tanta laranja madura
ai tanta!
que aroma vem do quintal.

A maré já deu passagem
cresce meu canavial

minha vara de condão
cavaleiro, teu punhal.

Jasmim da noite floriu.

Jasmim.

Acabou-se o bem e o mal.

Já tirei os meus sapatos,
vesti meu manto real.

                                           Jacinta Passos

[Este poema de Jacinta integrou originalmente seu terceiro livro, Poemas políticos, publicado no Rio de Janeiro em 1951. Como se comprova pela leitura do poema, este livro, ao contrário do que informa seu título, não foi composto apenas por poesias políticas: sua segunda parte, "Canções Líricas", contém alguns dos mais belos poemas líricos de Jacinta. A poesia foi republicada em Jacinta Passos, coração militante.


27.11.11

Rubens Jardim escreve sobre Jacinta Passos e Orides Fontela























O grande poeta Rubens Jardim, em seu site, escreveu sobre as trajetórias de vida e a poesia de Jacinta Passos e Orides Fontela. O texto aponta aproximações entre as duas escritoras, apesar das diferenças de época e estilos poéticos entre elas: tanto Jacinta quanto Orides foram poetas inspiradas, libertárias, corajosas, independentes, que viveram existências difíceis e enfrentaram estigmas, entre eles o da loucura, sendo até há pouco tempo completamente esquecidas, e hoje ainda procurando um espaço. O texto de Rubens, abaixo reproduzido graças à generosidade do autor, integra a excelente série que o poeta vem postando na internet, "As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira".

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (12)

Rubens Jardim

Apesar das grandes dificuldades que cercaram a vida destas duas poetas libertárias, Jacinta Passos e Orides Fontela não cederam um milímetro em suas convicções. Ambas enfrentaram, em circunstâncias e tempos diversos, preconceitos e estigmas. E seus embates foram duríssimos.Só que as duas fizeram poesia de alta voltagem, sem frouxidão e derramamentos emocionais. E mereceram a atenção e o aplauso de nomes como Antonio Cândido, Sergio Milliet, José Mindlin e Maria Helena Chauí. Infelizmente, as duas morreram pobres e incompreendidas --em sanatórios. E só recentemente suas obras voltaram a ser publicadas. Presto aqui uma homenagem a elas, alterando o parâmetro da série de 4 poetas por cada postagem. O talento de Jacinta e Orides merece esta modificação --e este destaque. E eu quero contribuir com o resgate dessa poesia alheia a correntes e modismos.

JACINTA PASSOS(1914-1973) – poeta baiana, professora, jornalista, militante política e feminista, nasceu em família rural abastada da região de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Foi católica fervorosa e se transformou em comunista ardorosa, nas palavras da filha, Janaína Amado. Publicou 4 livros: Nossos Poemas(1941), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958),longo poema sobre a Coluna Prestes, empreendida na década de 1920,que buscava mudanças políticas para o Brasil.

Todos os livros de Jacinta tiveram edições pequenas, e estão esgotados há muito tempo. Canção de Partida, por exemplo, teve tiragem de apenas 200 exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados por Lasar Segall. E embora tenha despertado interesse e atenção de nomes tão importantes como Mário de Andrade, Antonio Candido, Sérgio Milliet e Roger Bastide, a poesia vigorosa e libertária dessa poeta acabou caindo no esquecimento. Eu mesmo, que circulo nesse universo da poesia há mais de 40 anos, só muito recentemente tive acesso ao seu trabalho --e à sua trajetória marcada por tantos conflitos e dificuldades.

Mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, Jacinta Passos abandonou a formação religiosa, comum na época, e passou a lutar, a partir do início da Segunda Guerra Mundial pela paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas--conforme destaca Eliane F.C.Lima, em seu blogue.

Mas bem antes disso, quando tinha uns 18 anos, o catolicismo convencional de Jacinta já começou a migrar para o catolicismo social. Aquele que provocou e ainda provoca polêmicas e dissenções. Exemplar é o caso da Teologia da Libertação, tão influente na América Latina,e que acabou levando um de seus mais renomados integrantes, Frei Leonardo Boff, a ser julgado pelos tribunais do Vaticano.O viés desse catolicismo social, formulado pela encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, procurou oxigenar e aproximar a igreja católica de uma nova realidade, desenvolvendo noções como a de bem comum (os bens comuns seriam de responsabilidade de toda a sociedade) e a de destinação universal dos bens (os bens deveriam ser divididos com igualdade entre os homens)

Segundo sua filha, Janaína Amado, responsável pela publicação do livro Jacinta Passos, Coração Militante (2010), sua mãe vivenciou paixões intensas: por homens que a amaram, pela filha da qual foi afastada e pelo partidão onde permaneceu 30 anos na experiência clandestina. O calvário de Jacinta Passos começou em 1951, quando ela passou a sofrer crises nervosas e delírios persecutórios. Diagnosticada como esquizofrênica , vivenciou a violência extrema de diversos internamentos em sanatórios, tratada a eletrochoques, injeções de insulina e isolamento severo.

“Mas jamais deixou de escrever. Em Aracaju, por volta de 1962, foi morar sozinha em um povoado de pescadores. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, mas possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia.”

Janaína conta, ainda, que mesmo após o golpe militar de 1964, Jacinta Passos não abandonou a intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores.”Em 1965 foi detida quando pichava muros da cidade com palavras de ordem contrárias à ditadura. Foi recolhida ao 28º BC de Aracaju e depois transferida para a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até morrer, aos 57 anos, no dia 28 de fevereiro de 1973.” O livro Jacinta Passos, Coração militante, lançamento conjunto das Editoras Corrupio e Edufba em junho de 2010, reúne todo o material encontrado a respeito de Jacinta Passos. Contém ainda poemas esparsos, originalmente publicados em jornais e revistas, jamais reunidos em livro.E uma bela biografia que mostra a trajetória singular da poeta, bem como sua fidelidade às idéias e valores que a levaram a chocar-se contra tudo e contra todos— na contramão do tempo.

Canção do amor livre

Se me quiseres amarCantigas das mães
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.

Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?

– Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.
Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –
Tanta dor de solidão.
Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.


Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia.
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

ORIDES FONTELA (1940-1998) - poeta paulista de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. De família muito pobre, seu pai era operário analfabeto, viveu sempre em dificuldades financeiras. Aos 27 anos, depois de cursar a escola normal na terra natal, veio morar em São Paulo e realizar dois sonhos: entrar na USP e publicar um livro.

Fez filosofia, exerceu o magistério e trabalhou como bibliotecária na rede estadual de ensino.

Desde o primeiro livro, Transposição(1969), o discurso apurado de Orides Fontela está marcado pela contenção e pela economia verbal. Aliás, essa característica foi destacada por todos os críticos que se ocuparam de seus livros. Alguns apontaram, nessa marca personalíssima, reverberações da poesia descarnada de João Cabral. Outros, falaram da impessoalidade, da busca pela palavra exata e o culto a um silêncio esfíngico. O certo mesmo é que seus poemas são despidos de tudo o que pode ser considerado acessório e dispensável em poesia. A produção de Orides encontra-se publicada em seis obras, todas de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1969-1988, reunião de todas as outras obras) e Teia (1996). A única obra em prosa foi Almirantado, publicada no número 4 do caderno Almanaque de literatura e ensaio (1977). Segundo o poeta Donizete Galvão “ela reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas.” E a comprovação desse seu temperamento explosivo são essas palavras pinçadas pela poeta Nydia Bonetti:“Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero... Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. (...) Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. (...) Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não freqüento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.”

Tão verdadeira e por isso tão poética, Orides Fontela recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, com Alba , e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, com Teia . Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João. Era uma pessoa irritadiça e muitas vezes se meteu em encrencas, brigando com seus melhores amigos. Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 4 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar, na Fundação Sanatório São Paulo.Em 2006, parte da obra de Orides --"Transposição", "Helianto, "Alba", "Rosácea" e "Teia"-- foi compilada em um exemplar pela Cosac Naify, POESIA REUNIDA com bibliografia ampla e atualizada.

o espelho dissolve
o tempo o espelho aprofunda
o enigma o espelho devora
a face

AXIOMA

Sempre é melhor
               saber
               que não saber.
             
               Sempre é melhor
               sofrer
              que não sofrer
             
              Sempre é melhor
              desfazer
             que tecer

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade)

TEIA

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:

no
centro
a aranha espera.

AS SEREIAS

Atraídas e traídas
atraímos e traímos

Nossa tarefa: fecundar
                      atraindo
nossa tarefa: ultrapassar
                      traindo
o acontecer puro
que nos vive

Nosso crime: a palavra.
Nossa função: seduzir mundos.

Deixando a água original
cantamos
sufocando
o espelho
do silêncio

DESTRUIÇÃO

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade da análise.
O cruel saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação da forma,
recriando-a em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade da luz
que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.